MARTHA PAGY ESCRITÓRIO DE ARTE
artistas exposições quem somos notícias contato múltiplos projetos

> <
  • Inseto Fantasma 00, 2018

    Óleo e Acrílica sobre canvas

  • Inseto Fantasma 01, 2018

    Óleo e Acrílica sobre canvas

  • Inseto Fantasma 02, 2018

    Óleo e Acrílica sobre canvas

  • Inseto Fantasma 03, 2018

    Óleo e Acrílica sobre canvas

  • Inseto Fantasma 04, 2018

    Óleo e Acrílica sobre canvas

  • Inseto Fantasma 05, 2018

    Óleo e Acrílica sobre canvas

  • Inseto Fantasma 06, 2018

    Óleo e Acrílica sobre canvas

  • Inseto Fantasma 07, 2018

    Óleo e Acrílica sobre canvas

  • Inseto Fantasma 08, 2018

    Óleo e Acrílica sobre canvas

  • Inseto Fantasma 09, 2018

    Óleo e Acrílica sobre canvas

  • Inseto Fantasma 10, 2018

    Óleo e Acrílica sobre canvas

  • O Chamado, 2018

    Óleo e Acrílica sobre canvas

  • Sinapses nas Dobras, 2018

    Óleo e Acrílica sobre canvas

  • Imanência, 2018

    Óleo e Acrílica sobre canvas

  • Conversa com as estrelas, 2018

    Óleo e Acrílica sobre canvas

  • Contra Ponto e Fuga, 2018

    Óleo e Acrílica sobre canvas

Manon, artista visual carioca, participou da mostra “Como vai você, geração 80?” e de diversas exposições individuais e coletivas ao longo dos anos 1990 e 2000. Foi curador e artista da exposição “Geração digital”, em 2001, no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro. Em 2016/17, foi curador e artista da coletiva “Máquina do Mundo”, com importantes nomes da arte contemporânea brasileira. A arte de Manon entrelaça o real e o imaginário e investe na construção visual de um perspectivismo biocêntrico na pintura, segundo o qual estabelecemos com a natureza uma relação de troca e intersubjetividade, onde percebemos e somos percebidos. Seu trabalho resulta de ampla pesquisa interdisciplinar, de sua experiência de residência artística na Mata Atlântica e da prática por uma década como criador de abelhas. É criador do projeto de arte Santa Art Magazine, ganhador do prêmio de melhor publicação fine-art do mundo, Benny Award 2013 (Chicago). Publicou 10 edições, entre 2008 e 2014, com 170 artistas e 140 curadores.


RADIOGRAFIAS DO INVISÍVEL

DAS PLANTAS VIEMOS, ÀS PLANTAS VOLTAREMOS.

Por muito tempo, acreditamos ser os únicos seres dotados de inteligência e dimensão cultural. Esse devaneio não é apenas índice de nossa má consciência, é também uma forma desarmônica de estar no mundo. Felizmente, tal distorção vem sendo problematizada em diversos campos, das artes à neurobiologia, da filosofia à antropologia. Amparado em ampla pesquisa interdisciplinar, Manon traz esse tema para pintura e desloca o ser humano de sua ancestral centralidade, herdeira da tradição vitruviana, para o contraplano de suas telas, reconhecendo em plantas e animais a dimensão em que são também sujeitos e protagonistas do mundo.

As pesquisas visuais de Manon sempre estiveram conectadas ao tema da Natureza, e beneficiaram-se de sua estreita convivência com plantas e animais, e de sua experiência com a criação de abelhas por 10 anos. Já na década de 80, Manon concebeu “Copacabana na visão de uma mosca” na histórica coletiva “Como vai você, geração 80?”. Recentemente, realizou residência artística na Mata Atlântica, com a duração de um ano, e desenvolveu o projeto “Jardim das Sinapses”, exposição cuja proposta foi apresentar o biocentrismo e a perspectiva de que a natureza nos observa; também as plantas e animais são sujeitos e possuem alma.

A dicotomia natureza e cultura não faz parte das sinapses que acontecem em seus jardins; Manon prefere desafiar o viés predominantemente antropocêntrico de nosso olhar e acessar novas visibilidades. Se, nesse movimento, o artista encontra o belo, isso é apenas uma consequência natural de seu foco na harmonia, no equilíbrio e no convívio simbiótico entre os seres. É por isso que a beleza de sua obra, ao contrário do que poderia supor um olhar ingênuo, não está na representação ornamental do mundo, mas, sim, na composição refinada do artista que nos propõe imaginar o mundo vegetal a partir de sua inteligência complexa, aquela que revela elos tão profundamente interligados quanto os que dão forma à rede neural.

Seus portraits de plantas, pássaros e insetos nos mostram um mundo onde tudo está interligado e onde todos se reconhecem, ora como sujeito ora como objeto: como as plantas nos percebem? Serão elas a força primária e mais potente que nos originou? Vegetais estão em constante movimento, mas seu tempo é diferente do nosso. Se em nosso modo de ver eles nos parecem imóveis, não é difícil imaginar, em contrapartida, o quanto devemos lhes parecer agitados – para as plantas, somos possivelmente rápidos como moscas, frenéticos como insetos em volta da lâmpada. Todas as formas de vida têm sensibilidade, cultura, inteligência, competitividade, sistema de defesa e organização.

Manon traz para o primeiro plano o que comumente figura como fundo ou paisagem e, ao fazê- lo, ecoa o perspectivismo ameríndio de Viveiros de Castro, propondo em seu campo uma espécie de perspectivismo biocêntrico. É essa percepção que mobiliza o artista a buscar formas estéticas de abordar o tema, fomentando a reflexão sobre os sentidos de compartilharmos a Terra com seres tão inteligentes e resistentes quanto os insetos. É nesse aspecto especialmente, onde beleza, harmonia e espiritualidade se encontram, que o trabalho de Manon se aproxima da proposta de Hunderwasser. Assim como o pintor das “cinco peles”, que idealizou o “direito à janela”, Manon faz sua opção pelas linhas tortas, em oposição às simetrias cartesianas e perspectivas euclidianas. As telas do artista são como janelas abertas na parede, dando acesso a um mundo onde tudo o que existe compartilha a mesma espiritualidade e a mesma consciência.

A primazia que damos à razão bem como a força de certos condicionamentos culturais urbanos acabaram por apequenar nosso olhar, emoldurando-o em torno de um ângulo distorcido que reforça a ilusão de sermos uma forma mais bem acabada de existência. Tudo indica, contudo, que é justo o contrário. Ano após ano, o traço auto predatório que insiste em prevalecer na civilização humana pavimenta silenciosamente a estrada que conduzirá nosso destino. Das plantas viemos às plantas voltaremos. Essa é a base da metafísica que alicerça o perspectivismo biocêntrico com que nos presenteia a obra de Manon.

Ana Lucia Amado, é Mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela Puc-Rio. Graduou-se em Antropologia na Unicamp e UFRJ e especializou-se em Filosofia pela UNB. Colaborou em publicações do Urbandata/IUPERJ, e atuou como pesquisadora sênior do Banco Mundial, em pesquisa encomendada pelo Ministério da Educação. Em 2018, escreveu o experimento teórico “Jardim das Sinapses - ensaio gráfico biocêntrico”, com o artista visual Manon, e também o texto curatorial de sua exposição, resultante da residência de um ano na Mata Atlântica Atualmente, dedica-se a escrever seu primeiro romance gráfico, “Emaranhado”, cuja proposta investe no diálogo intermidiático entre pintura, literatura e cinema.